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Resumo
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O sucesso da obra Lettres Portugaises, que extravasa o âmbito meramente
nacional, prende-se sobretudo, na nossa opinião, com o caráter enigmático e
com a aura de mistério que a envolve, decorrentes de motivos diversos, que
foram já sufi cientemente identifi cados pela crítica.
Desde a publicação das cartas da religiosa portuguesa, no fi m do século
XVII, que a carta é entendida como medium apropriado e adequado à expressão
espontânea da intimidade e da paixão. Contudo, sublinhe-se que, tal como
sucede com outras criações literárias da época, a negligência e a impulsividade
das cartas de Mariana são efeitos textuais, mais pensados e refl etidos
do que à primeira vista possa parecer. Embora haja uma corrente da crítica
que defende a veracidade da história da Soror Mariana, baseada inclusive em
pesquisa documental, entendemos relegar essa questão para segundo plano.
Independentemente da existência empírica da fi gura e da veracidade ou não
destas cartas, entendemos que, a partir do momento em que elas são coligidas,
ordenadas e publicadas por um editor, elas adquirem uma dimensão orgânica
que escapa à lógica de julgamento referencial.
No caso das Lettres Portugaises, é o ato de produção do discurso o elemento
diegético fundamental, o que secundariza de certa forma o destinatário
eleito. Será através do discurso que Mariana enceta um processo catártico de
autoanálise, que lhe permitirá trilhar um processo de racionalização.
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